Ser criativo faz bem ao cérebro mas somos cada vez menos estimulados nesse sentido - paranagora

paranagora

Site de notícias do Estado do Paraná

LEIA TAMBÉM

domingo, 28 de junho de 2020

Ser criativo faz bem ao cérebro mas somos cada vez menos estimulados nesse sentido

O conceito tem vindo a perder-se no quotidiano e também no seio das organizações. Estamos a ficar mais padronizados e também mais autômatos. Descubra as cinco mudanças que os especialistas propõem para uma vida mais original e colorida.

©DIVULGAÇÃO
80% das pessoas sente-se pressionada para ser produtiva e desincentivada a ser criativa no local de trabalho, segundo um estudo que a empresa multinacional fabricante de software informático Adobe apresentou há uns anos e que, nos dias de hoje, ainda não perdeu a atualidade. Na vida real, se pensar nisso, não difere muito. Passa mais tempo a procurar solucionar problemas e resolver assuntos do dia a dia do que a desenvolver atividades criativas.

Uma realidade que Anita Silva, diretora-executiva da empresa de consultoria criativa Team Mais e co-fundadora da Clown Care, uma associação que leva a arte do palhaço a lares de idosos, procura combater, como afirmou em entrevista à edição impressa da revista Prevenir. "A primeira coisa que faço quando quero ser criativa é deixar a gestão em banho-maria", revelou, então, a especialista e empreendedora, habituada a lidar com o problema.

"Isto faz com que o consciente deixe de estar tão ativo a procurar uma solução lógica e o inconsciente possa começar a intervir, como acontece nos sonhos ou quando passamos à frente da resposta mais difícil no teste e voltamos a ela mais tarde, já com outros estímulos na cabeça. Quando volto à questão, surgem invariavelmente novas ideias. Depois, crio momentos de pensamento divergente. Juntar universos distintos é um exercício que ajuda", refere.

"Se estou a criar uma formação de criatividade, posso pensar como é que juntaria o mundo do balé a esta ideia ou outra coisa que venha de um mundo diferente. Isso ajuda a desformatar o cérebro", assegura Anita Silva, que desvenda ainda outro dos métodos a que recorre. "Também uso mapas mentais ou esquemas em papel para visualizar ideias", confidencia a gestora. "Tenho um elemento no centro e vou juntando outros em volta", afirma.

"Isso ajuda-me a ter uma visão global e a combinar elementos de formas inesperadas", acrescenta ainda Anita Silva. Esta é apenas uma forma de a fazer, a dela. No dia a dia, são muitas as (outras) estratégias a que pode recorrer para se libertar das amarras que formatam o cérebro. Estes são os cinco conselhos que os especialistas que contactamos deixam para reforçar a criatividade, uma ação que estimula e melhora a atividade cerebral, no seu quotidiano.

1. Desligue a autocensura

Essa é a primeira amarra a largar. "Faço um exercício matinal que se chama morning pages [páginas matinais em inglês]. Consiste em fazer escrita automática, sem censura, logo de manhã, ainda meio a dormir. No início custa, podem só sair coisas como não me ocorre nada ou está sol. Mas, se continuarmos, começam a surgir coisas interessantes e é uma prática que ajuda a desligar o modo lógico e a autocensura", assegura mesmo Anita Silva.

2. Recorra a jogos

Não se limite ao exercício de escrita matinal anterior. "Eu recorro a jogos de encaixar peças enquanto escrevo", confessa Margarida Fonseca Santos, escritora que dá cursos de escrita criativa e formação a professores. "Há um truque que uso quase todos os dias. Ligo um jogo simples de encaixar peças por cima do documento em que estou a trabalhar. Ao jogar desta forma, o cérebro descontrai e esse é o segredo para sermos bem-sucedidos", garante.

"Descontrai e começa a associar livremente ideias, frases... Quando sinto que estou nesse ponto, desligo o jogo e escrevo. Muitas vezes, as ideias surgem-me por associação. Isto acontece no meio de tarefas como lavar loiça, arrumar, guiar ou meditar. Mais tarde, de forma umas vezes rudimentar e de outras elaborada, faço um esquema com um lápis. Só depois escrevo. Posteriormente, começa o verdadeiro trabalho, que é rever, modificar, voltar atrás e por aí fora...", refere.

3. Arranje um hobby

Demasiado tempo a fazer as mesmas coisas, muitas delas rotinas há muito enraizadas, tolda o pensamento e limita a ação criativa. "Os hobbies são estimulantes e, como o cérebro tende a generalizar, tanto as boas como as más práticas, dão-nos maior capacidade de ser mais criativos, seja na nossa profissão ou na forma como aproveitamos a reforma", refere Margarida Fonseca Santos, que defende a adoção de um hobby para diversificar os interesses.

4. Passeie e visite espaços museológicos e culturais

Demasiado tempo em casa limita horizontes. "Eu inspiro-me tanto em museus como no YouTube", revela Pedro Tochas. O comediante, especialista em stand up comedy, faz também palestras motivacionais em empresas. Quando o elogiam, referindo que tudo o que ele diz e faz em cima do palco tem piada, ele reage de imediato. "Eu respondo que aquilo é o que as pessoas veem depois de eu andar semanas a trabalhar naquilo", conta o humorista.

"Há que escavar muito, ter muitas ideias, até aparecer uma pepita", sublinha. "Uma das coisas que mais me estimula é ver museus de arte contemporânea, também viajo muito e vejo muitos espetáculos mas até a navegar no YouTube temos informação estimulante", refere. "Começa-se por um vídeo que nos mandaram e acaba-se a ver algo sobre a reprodução de pandas", desabafa. "O mundo está cheio de coisas incríveis», considera mesmo Pedro Tochas, que desvenda um segredo. "Quando tenho um espetáculo para preparar, passo algum tempo a recolher material", prossegue.

"Se há algo me chama a atenção durante o jogging, anoto no telefone. Depois, decido um tema e vou pensando naquilo durante semanas, tendo ideias sem me preocupar se são boas. Fazer a primeira versão é o que requer mais coragem. O escritor Ernest Hemingway dizia que o primeiro rascunho é, quase sempre, uma porcaria. Não podemos ter medo. Eu apresento as ideias mesmo inacabadas para ter feedback e vou melhorando a partir daí», esclarece.

5. Exerça a capacidade de deslumbramento

Liberte-se das ideias pré-concebidas e olhe (mais) em seu redor. "O mundo é como um museu de arte contemporânea, tem coisas que não lembram ao diabo. Para criar, eu tenho de estar permanentemente aberto, como uma esponja, a absorver estímulos de fora. Isto ocorre 24 horas por dia. É uma forma de estar curiosa e atenta. Como comediante, o meu material é o mundo e o combustível das ideias é a vida", acrescenta ainda o humorista Pedro Tochas.

Texto: Bárbara Bettencourt e Luis Batista Gonçalves com Vítor Rodrigues (psicólogo e psicoterapeuta), Anita Silva (clown care e CEO da Team Mais), Margarida Fonseca Santos (escritora) e Pedro Tochas (comediante)

Nenhum comentário:

Postar um comentário